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A Missa de Carlos Seixas11 Julho 2005
Manuel Ivo Cruz*


Em 26 de Junho passado, durante a celebração da Eucaristia dominical do meio-dia, ouviu-se na Igreja da Lapa uma importante obra do nosso património cultural: a Missa a 4 vozes, em Sól Maior, de Carlos Seixas.
Nascido em Coimbra em 1704, filho de Francisco Vaz organista da Sé, José António Carlos Seixas veio jovem para Lisboa já como celebridade, ocupando o posto de Organista e Cravista da Patriarcal; muito considerado na Corte, mereceu rasgado elogio do Mestre de Capela de D. João V, Domenico Scarlatti.
O grande talento criativo garante-lhe hoje um lugar imperecível no panorama musical europeu; a sua linguagem é moldada pelas correntes da época,mas enriquecida pelo característico lirismo português, que se identifica especialmente nos andamentos lentos das obras: uma arte superior, em que o elemento nacional se funde com o universal.
Não obstante ter vivido apenas 38 anos, Seixas deixou-nos uma vasta obra; são-lhe atribuídas várias centenas de Tocatas para cravo ou/e orgão, - infelizmente perdidas na maior parte – uma Abertura para orquestra de arcos, um Concerto para cravo e cordas, uma Suíte (Sinfonia) para sopros, tímpanos e cordas, bem como várias composições para a Igreja: Missas, Te Deum, Motetes à capela ou com acompanhamento instrumental.
A recuperação moderna deste grande mestre setecentista deve-se à iniciativa do maestro e compositor Ivo Cruz (1901-1985), responsável no século XX pelas primeiras audições modernas e edições de algumas das suas mais notáveis obras, bem como a Santiago Kastner, no respeitante à divulgação das composições cravísticas em edições européias.
Creio que a interpretação da Missa em Sól Maior de Carlos Seixas, que originou esta crônica, terá sido a sua estreia no Porto; também foi a primeira vez que a ouvi e fiquei verdadeiramente encantado com a obra e com os artistas que a revelaram: Coro de Câmara Portogalante Ensemble (agrupamento vocacionado para o reportório barroco), Orquestra “Sine Nomine”, orgão Vasco Soeiro, soprano Maria João Matos, contratenor Victor Lima, tenor João Miguel Gonçalves, barítono Helder Bento, direcção do Mestre de Capela Filipe Veríssimo.
Não é demais sublinhar o muito que a Música e os músicos portugueses devem à extraordinária acção do maestro-compositor Cónego Dr. Ferreira dos Santos, Reitor da Irmandade e da Igreja da Lapa.
Desde a fundação do Coro da Sé Catedral do Porto, de mais 3 conjuntos corais na sua Igreja, de uma orquestra e do Monumental Orgão de Tubos (inaugurado faz agora 10 anos), autor de numerosas obras relevantes como o “Requiem à Memória do Infante D. Henrique” (que tive o gosto e honra de dirigir em concertos e gravar em CD), Ferreira dos Santos tem influenciado profundamente a vida musical da Igreja em Portugal, restituindo-lhe a dignidade estética, ética e artística que estavam em vergonhosa decadência.

A audição desta Missa de Carlos Seixas inscreve-se no louvável itinerário programático da sua grande capacidade cultural e social, mantendo no Porto um verdadeiro pólo em constante efervescência, beneficiando os instrumentistas, cantores, maestros e compositores profissionais, os amadores dos conjuntos corais e os melómanos em geral, que enchem semanalmente a Igreja da Lapa, não só nas celebrações litúrgicas mas também esgotando os lugares para assistência aos numerosos e prestigiados concertos que organiza com reportório de obras-primas da grande literatura internacional e portuguesa e intérpretes sempre de cuidada qualidade.

*Maestro e director de orquestra


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